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9 vezes Antônio Bispo dos Santos sobre terra, comida e contracolonização

  • Guilherme Dearo
  • 27 de mar.
  • 2 min de leitura

O livro "A terra dá, a terra quer" registra por escrito alguns dos saberes orais, ancestrais e de vida do filósofo, poeta, escritor, professor, líder quilombola e ativista político Nego Bispo (1959-2023)



1. Quando completei dez anos, comecei a adestrar bois. Foi assim que aprendi que adestrar e colonizar são a mesma coisa.


2. Guerra das denominações: o jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las. Para enfraquecer o desenvolvimento sustentável, nós trouxemos a biointeração; para a coincidência, trouxemos a confluência; para o saber sintético, o saber orgânico; para o transporte, a transfluência; para o dinheiro (ou a troca), o compartilhamento; para a colonização, a contracolonização… e assim por diante.


Somos da circularidade: começo, meio e começo

3. Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio, ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece.


4. Há uma compreensão nossa – e isso é cosmológico – de que tudo o que nasceu por conta da natureza é de todo mundo.


5. Quando falam de indivíduo, falam de unicidade. Nós, quando falamos de indivíduo, estamos falando de unidade, estamos dizendo “um”, mas esse “um” é parte do todo, do universo. Se para os humanistas o “um” é o universo, para nós só há “um” porque há mais de um.


6. Não há festa sem comida nem comida sem festa, assim como não há comida sem plantio. As comidas típicas de cada festa acompanham o modo de vida compartilhado e o ciclo de plantio.


7. A casa tem que ser uma parte dos nossos corpos, temos que suar naquele material, temos que sentir nosso cheiro em nossa casa. A arquitetura colonialista, uma arquitetura sintética, não nos permite isso.


Se para os humanistas o “um” é o universo, para nós só há “um” porque há mais de um.

8. Nossa geração avó dizia que a gente planta o que a gente quer, o que a gente precisa e o que a gente gosta, e a terra dá o que ela pode e o que a gente merece. Então jogávamos todo tipo de semente no mesmo local e a terra fazia a seleção das sementes que ela deixaria germinar. Alguns animais conhecidos como insetos preferiam comer uma espécie de planta e deixavam as outras. Essa era a sabedoria cosmológica do nosso povo. Não precisávamos usar veneno porque os animais faziam a seleção. Como todas as plantas eram alimento, aquelas que sobravam eram para nós.


9. Somos povos de trajetórias, não somos povos de teoria. Somos da circularidade: começo, meio e começo. As nossas vidas não têm fim. A geração avó é o começo, a geração mãe é o meio e a geração neta é o começo de novo.


A terra dá, a terra quer. Antônio Bispo dos Santos. Editora Ubu, 2023.

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