top of page

7 vezes Simone de Beauvoir sobre mães, vida e morte

  • Guilherme Dearo
  • 12 de mar.
  • 2 min de leitura

No ensaio biográfico "Uma morte muito suave", a escritora e intelectual francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) narra a repentina morte da mãe, Françoise Brasseur, e reflete sobre maternidade, feminismo e relações entre pais e filhos




1. Ver o sexo de minha mãe: isso me chocara. Para mim, não havia corpo que existisse menos do que o dela; mais ainda, não existia. Criança, amara-o; adolescente, inspirara-me uma repulsa inquieta, isso é clássico, e achava normal que tivesse conservado esse duplo caráter, repugnante e sagrado: um tabu. Mesmo assim, surpreendia-me com a violência de meu desagrado.


2. Só que esse corpo, subitamente reduzido por essa renúncia a não ser mais do que um corpo, já não diferia muito de um despojo: pobre carcaça sem defesa, apalpada, manipulada por mãos profissionais, onde a vida parecia prolongar-se apenas por uma inércia estúpida. Para mim, minha mãe existira sempre, e eu jamais pensara seriamente que a veria desaparecer um dia, bem cedo. O seu fim, tal como o seu nascimento, situava-se num tempo mítico.


3. Carente de alegrias do corpo, privada de satisfações da vaidade, submetida a tarefas que a aborreciam e humilhavam, essa mulher orgulhosa e obstinada não estava dotada para a resignação.


4. E mamãe, que vivera eriçada de orgulhosas suscetibilidades, não sentia vergonha nenhuma. Era também uma forma de coragem, nessa espiritualista afetada, assumir agora com tanta decisão a nossa animalidade.


5. Mamãe adormeceu. Mas, pela manhã, tinha nos olhos toda a tristeza dos animais indefesos.


6. Acontece muito raramente que o amor, a amizade, a camaradagem, superem a solidão da morte; apesar das aparências, mesmo quando lhe segurava a mão, eu não estava com mamãe: eu lhe mentia. (...) Contudo, em cada célula do meu corpo, eu me unia à sua recusa, à sua revolta; era também por isso que a sua derrota me aniquilara.


7. Não há morte natural: nada do que acontece ao homem jamais é natural, pois sua presença questiona o mundo. Todos os homens são mortais: mas para cada homem sua morte é um acidente e, mesmo que ele a conheça e a consinta, uma violência indevida.


Simone de Beauvoir. Uma morte muito suave. Nova Fronteira, 2020. Trad. Álvaro Cabral.

Comentários


© Guilherme Dearo 2026 — "dentro da noite veloz"

bottom of page