top of page

12 vezes Benjamín Labatut sobre ciência, loucura e caos no século 21

  • Guilherme Dearo
  • 17 de mar.
  • 4 min de leitura

O escritor chileno reflete nos seus dois ensaios de "A Pedra da Loucura" sobre insanidade, escuridão e os limites do conhecimento na era dos novos governos genocidas



1. “A coisa mais misericordiosa do mundo, acredito eu, é a incapacidade da mente humana de relacionar todos os seus conteúdos”, escreveu Lovecraft. “Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a mares negros de imensidão, e não estamos destinados a viajar muito longe. As ciências, cada uma avançando em sua própria direção, pouco nos prejudicaram até o momento; mas algum dia a soma de todo esse saber dissociado abrirá uma perspectiva tão aterrorizante da realidade e do lugar assombroso que ocupamos nela que ficaremos loucos por conta dessa revelação ou fugiremos da luz para a paz e a segurança de uma nova era das trevas.”


2. As extravagâncias do infinito e as delirantes formas do espaço não euclidiano foram apenas duas das forças que começaram a minar nossa firme confiança de que os fenômenos naturais poderiam ser capturados com uma arapuca feita de números, e a brutal complexidade do mundo poderia ser domada com priscas equações e teorias inequívocas.


Quantas pessoas, organizações, empresas e governos depositaram uma confiança cega nos números e acreditaram na solidez dos “dados concretos”

3. Gödel também demonstrou que se um sistema for completo — se puder provar de fato todas as suas verdades — será inconsistente, pois estará repleto de contradições internas que lhe permitirão validar qualquer enunciado, assim como a sua negação. Uma verdade e seu oposto. Juntos, os dois teoremas de Gödel apontam diretamente para os limites da lógica, para além dos quais ainda não conseguimos enxergar.


4. Nossas vidas se tornaram tão estranhas e incertas quanto o reino quântico. O falso e o simulado parecem estar sufocando a verdade, enquanto os aspectos fictícios da existência assediam o santuário da razão.


5. Por que somos perseguidos pela sensação crescente de que nada tem sentido? Por que sentimos que o mundo vai acabar?


6. Hoje, os monstros e as maravilhas da ciência e da tecnologia nos deixam paralisados. Precisamos fazer um esforço constante para não afogar na rebentação de uma interminável maré de mudanças, enquanto os poderes políticos e econômicos nos espancam até a submissão.


7. Existem algumas respostas óbvias à pergunta de por que nosso mundo se tornou tão incompreensível: quando os sistemas são interconectados, sua complexidade cresce de forma explosiva, e eles começam a manifestar fenômenos emergentes que não poderiam ter sido previstos antes, porque surgem como produto de múltiplas interações, algo semelhante ao que acontece dentro da nossa mente, com nossos pensamentos e nossas percepções.


O falso e o simulado parecem estar sufocando a verdade, enquanto os aspectos fictícios da existência assediam o santuário da razão

8. A teoria do caos foi a terceira grande revolução científica do século XX, junto com a relatividade e a mecânica quântica, mas, como costuma acontecer com as ideias científicas quando saem da segurança de sua toca e entram no grande campo de caça cultural, o que se apoderou da imaginação humana, o que nos seduziu com inesperada violência não foi a extrema sensibilidade à variação das condições iniciais, mas o próprio conceito da imprevisibilidade.


9. Também estaria explicado por que lunáticos perigosos voltaram a ascender como nossos líderes: eles trazem consigo a força da desrazão e cavalgam livremente sobre as ondas frenéticas da mudança como nenhuma pessoa com decência ou bom senso pode fazê-lo. Esses mensageiros sombrios oriundos das profundezas do nosso inconsciente, essas vozes distorcidas que podemos ouvir gritando à nossa volta… são sereias nos chamando para o naufrágio e a morte? São apenas idiotas cheios de som e fúria, contando histórias que não significam nada? Ou será que são os primeiros arautos de uma nova forma de consciência, absurda e desprovida de sentido, capaz de ver além da lógica, e da qual talvez estejamos recebendo uma mensagem que até agora não quisemos ouvir? Ainda é cedo demais para saber. A única coisa que sabemos com certeza é que a realidade só vai ficar mais estranha nas próximas décadas.


10. Ao ler as palavras daquela mulher infeliz e ouvir sua voz sussurrante, não pude deixar de pensar que talvez nossas vidas ultraconectadas estejam nos conduzindo a um novo tipo de transtorno, uma forma de loucura contagiosa que está se infiltrando pouco a pouco no mundo, erodindo a fina barreira que separa a realidade da fantasia, a ficção da não ficção.


11. No entanto, ela não é a primeira — nem será a última — a usar a ciência como muleta. Quantas pessoas, organizações, empresas e governos depositaram uma confiança cega nos números e acreditaram na solidez dos “dados concretos”, mesmo seguindo um caminho insano? São tantas que é impossível citar.


12. Hoje, tanto a paisagem criada por nossos meios de comunicação quanto nossas experiências cotidianas parecem estar sempre nubladas, tingidas de certa desconfiança, a estranha sensação de que o mundo perdeu algo essencial.


A Pedra da Loucura. Benjamín Labatut. Editora Todavia, 2022. Trad. Mariana Sanchez.

Comentários


© Guilherme Dearo 2026 — "dentro da noite veloz"

bottom of page