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8 vezes Ágota Kristóf sobre a descoberta da linguagem, dos livros e da escrita

  • Guilherme Dearo
  • há 20 minutos
  • 2 min de leitura

A escritora suíça-húngara (19352011) narra no breve e honesto ensaio autobiográfico "A Analfabeta" sobre a descoberta ainda criança do poder da leitura e dos livros, sobre suas primeiras experiências com a escrita — e também sobre o húngaro que precisou abandonar e o francês que precisou aprender



1. O vô retira um jornal do bolso de sua sobrecasaca e diz para os vizinhos: — Vejam! Escutem! E para mim: — Leia. E eu leio. Fluentemente, sem erros, na velocidade que eles querem. Tirando esse orgulho típico de avô, a doença da leitura me acarretará principalmente críticas e desprezo: “Nunca faz nada. Ela só lê.” “Não sabe fazer outra coisa a não ser isso.” “É a ocupação mais inerte que existe.” “É pura preguiça.” E principalmente: “Ela lê, em vez de…” Em vez de quê? “Existem tantas coisas mais úteis, não é?”


2. A vontade de escrever chegará mais tarde, quando será quebrado o fio prateado da infância, quando virão dias cruéis, e chegarão os anos que eu poderia definir como “não amados”.


O certo é que eu teria escrito, em qualquer lugar, em qualquer língua.

3. No começo, só havia uma língua materna. Os objetos, as coisas, os sentimentos, as cores, os sonhos, as letras, os livros, os jornais, eram aquela língua. Nunca imaginaria que pudesse existir outra língua, que um ser humano pudesse pronunciar palavras que eu não conseguiria entender.


4. Deixei na Hungria o meu diário com a escrita secreta, assim como meus primeiros poemas. Deixei lá meus irmãos, meus pais, sem avisá-los, sem me despedir deles, sem sequer dizer até logo. Mas principalmente, naquele dia, naquele dia de final de novembro de 1956, perdi definitivamente meu pertencimento a um povo.


5. Como teria sido minha vida se não tivesse deixado meu país? Mais dura, mais pobre, penso, mas menos solitária, menos lacerada, talvez feliz. O certo é que eu teria escrito, em qualquer lugar, em qualquer língua.


Primeiramente, é claro, é preciso escrever. Em seguida, é preciso continuar escrevendo.

6. Primeiramente, é claro, é preciso escrever. Em seguida, é preciso continuar escrevendo. Inclusive quando não interessa a ninguém. Inclusive quando temos a impressão de que nunca interessará a ninguém. Inclusive quando os manuscritos se acumulam nas gavetas e nós os esquecemos, mesmo continuando a escrever outros.


7. Berlim, à noite, nos espera uma leitura pública. Pessoas virão para me ver, me escutar, para me fazer perguntas. Sobre meus livros, sobre minha vida, sobre minha trajetória como escritora. Eis a resposta à pergunta: alguém se torna escritor escrevendo com paciência e obstinação, sem jamais perder a confiança naquilo que escreve.


8. Minha filhinha me olha com olhos arregalados quando falo com ela em húngaro. Uma vez, ela começa a chorar porque eu não a entendo, outra vez porque é ela quem não me entende. Cinco anos depois de ter chegado à Suíça, falo francês, mas continuo sem saber lê-lo. Voltei a ser analfabeta. Eu, que já lia com quatro anos de idade. (...) Essa língua, o francês, não fui eu quem a escolheu. Ela me foi imposta pelo destino, pelo acaso, pelas circunstâncias. Escrever em francês é uma necessidade. É um desafio. O desafio de uma analfabeta.


Ágota Kristóf. A Analfabeta. Editora Nós, 2024. Trad. Prisca Agustoni.

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© Guilherme Dearo 2025 — "dentro da noite veloz"

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