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6 vezes Karl Ove Knausgård sobre tempo, memória e morte

  • Guilherme Dearo
  • 6 de jul.
  • 2 min de leitura

Após sua série de autoficção em seis volumes, o celebrado escritor norueguês Karl Ove Knausgård (1968) se vale de diferentes vozes no romance de traços fantásticos "Estrela da Manhã" para falar sobre vida, envelhecimento e morte



1. A infância era a época de correr de um lado para o outro e simplesmente existir, enquanto a juventude era a descoberta da estranha doçura da morte. E então eu passei a gostar mais de agosto. Talvez nem fosse estranho; eu estava no meio da vida, no lugar do tempo em que as coisas se completam, na lenta e progressiva estagnação de plenitude, antes que tudo começasse a se esvaziar e a esmorecer numa decadência igualmente vagarosa.


2. Todas as fotografias e todos os filmes poluem a existência — ele às vezes dizia. — Hoje em dia a gente arquiva as pessoas e os acontecimentos a tal ponto que o tempo em que vivemos está sendo posto de lado.


Mas quem disse que a vida seria aberta?

3. Na época eu achei que a minha vida seria daquele jeito. Desperdiçávamos o nosso tempo e as nossas ideias, e foi somente quando aquilo acabou que eu compreendi que tudo fora uma experiência única que não havia de se repetir. Assim é a vida, não? Quando somos jovens, acreditamos que há mais por vir, que aquilo é o início de outra coisa, enquanto na verdade aquilo é tudo, e o que antes tínhamos sem nem ao menos pensar a respeito logo se transforma na única coisa que temos.


4. Já mais nada se encontrava aberto como estava no início dos nossos vinte anos. Mas quem disse que a vida seria aberta?


5. A consciência é mais ou menos como um lugar onde nos revelamos para nós mesmos. Mas por que fazemos isso? Que bem isso nos traz? Quando nos vemos, nos vemos a partir de fora, ou seja, da mesma forma como os outros nos veem. E foi isso o que Nietzsche compreendeu: que a consciência existe em prol da comunidade. Em prol de tudo aquilo que acontece entre as pessoas. E é nesse sentido que talvez existam outras formas de consciência. Outras formas de inteligência. Numa floresta, por exemplo. A questão é que essa consciência, ou inteligência, que seja, é tão estranha para nós que nem ao menos conseguimos ver que está lá.


6. Quarenta anos é a idade em que pela última vez encontramos a nós mesmos na porta e podemos analisar a situação antes que seja tarde demais para mudar de rumo na vida.


Estrela da Manhã. Karl Ove Knausgård. Companhia das Letras, 2025. Trad. Guilherme da Silva Braga.

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