6 vezes Herman Hesse sobre vida, velhice, felicidade e escrita
- Guilherme Dearo
- há 4 dias
- 4 min de leitura
O escritor nascido alemão e naturalizado suíço Herman Hesse (1877-1962) reflete nos breves ensaios reunidos em "Felicidade" sobre a vida contemplativa, a chegada da velhice e a busca pela felicidade em meio aos desafios do cotidiano de escritor e artista

1. Aqui e ali o escritor e possivelmente várias outras pessoas sentem a necessidade de afastar-se por uma hora das simplificações, dos sistemas, das abstrações e outras mentiras parciais ou completas, e contemplar o mundo como ele realmente é, portanto não como sistema complicado mas afinal previsível e compreensível de conceitos, mas como uma mata virgem de segredos belos e terríveis, sempre novos, totalmente incompreensíveis, que ele é. E cada um de nós vive contente e apaziguado em seu mundo de aparências e em seu mapa, até que uma represa rompida ou alguma terrível compreensão de repente o faça sentir que a realidade, o tremendo, o terrivelmente belo ou terrivelmente pavoroso desabam e o abraçam e arrebatam fatalmente, sem saída.
2. Quer se tratasse de experiências de dias, horas quer de minutos, vivi a felicidade algumas vezes, por instantes estive próximo dela. Mas daqueles encontros felizes do começo da vida, sempre que os convoquei, interroguei e examinei, um especialmente persistiu. Foi nos meus tempos de menino de escola, e o singular, legítimo, primitivo e mítico nessa experiência, o estado de ser um com o mundo num riso silencioso, a total liberdade em relação a tempo, esperança e temor, o absoluto presente não pode ter durado muito, talvez não mais do que alguns minutos.
Atormentados por desejos, sonhos, anseios e paixões como a maioria das pessoas, corremos pelos anos e pelas décadas de nossa vida, impacientes, tensos, cheios de expectativa, intensamente excitados por realizações ou decepções
3. É desejo de fama, vaidade, desejo de atacar ou prazer inconsciente em ser atacado, que me leva a sempre mandar para o mundo esses meus amados filhos, expondo-os aos mal-entendidos, aos acasos e à crueldade toda? Essa é uma pergunta da qual nenhum artista jamais se livra inteiramente. Pois o mundo nos paga por nossas criações às vezes até mais do que valem, mas nos paga não com vida, com alma, com felicidade ou com substância, e sim com aquilo que tem para dar: dinheiro, honrarias, lugar na lista dos importantes. Sim, o trabalho do artista pode ter as respostas mais improváveis. Como: um artista trabalha para o povo, que é seu campo de atuação natural e seu natural mercado, mas o povo permite que essa obra, que lhe foi confiada, pereça; recusa ao artista o reconhecimento e o pão. De repente outro povo, totalmente estranho, lembra-se dessa obra e dá ao desiludido o que ele mais ou menos mereceu: reconhecimento e pão.
4. A velhice é uma fase de nossa vida, e, como todas as outras, tem seu rosto próprio, atmosfera e temperatura próprias, alegrias e aflições próprias. Ser velho é uma tarefa tão bonita e sagrada quanto ser jovem, aprender a morrer e morrer é uma função tão valiosa quanto outra qualquer — desde que seja realizada com respeito pelo sentido e pela sacralidade de toda a vida. Um velho que apenas detesta e teme ser velho, ter cabelos brancos e ver a morte se aproximar, não é um representante digno de sua fase de vida, assim como um jovem forte que odeia sua profissão e seus trabalhos diários e busca esquivar-se deles. Em resumo: para cumprir seu sentido enquanto velho e realizar sua tarefa, é preciso concordar com a velhice e tudo o que ela traz consigo, é preciso dizer-lhe Sim. Sem esse Sim, sem a entrega àquilo que a natureza exige de nós, perdemos o valor e o sentido de nossos dias, sejamos velhos ou moços — e assim traímos a vida.
Sim, sem a entrega àquilo que a natureza exige de nós, perdemos o valor e o sentido de nossos dias, sejamos velhos ou moços — e assim traímos a vida.
5. Olhar, contemplar, observar, torna-se cada vez mais um hábito e um exercício, e imperceptivelmente todo o nosso comportamento é contagiado pelo estado de espírito e a postura de um contemplativo. Atormentados por desejos, sonhos, anseios e paixões como a maioria das pessoas, corremos pelos anos e pelas décadas de nossa vida, impacientes, tensos, cheios de expectativa, intensamente excitados por realizações ou decepções — e hoje folheamos cuidadosamente o grande livro de figuras de nossa própria vida, admirando-nos de como pode ser bom e bonito termos emergido daquela corrida e caçada, chegando à vida contemplativa. Aqui nesse jardim de anciãos florescem muitas flores que antigamente mal teríamos pensado em cultivar. Aqui nasce a flor da paciência, uma erva nobre, nós vamos ficando mais indiferentes, mais tolerantes, e quanto menor se torna nosso anseio de agir e intervir, tanto maior fica nossa capacidade de observar a vida da natureza e a vida dos nossos semelhantes, e ouvi-la, deixá-la passar diante de nós sem crítica mas com sempre renovado assombro por sua multiplicidade, às vezes com compaixão e silenciosa piedade, às vezes com riso, com alegria clara e com humor.
6. Nós escritores dependemos das palavras, ela é nosso instrumento, que ninguém jamais consegue dominar inteiramente. Pelo menos de mim posso dizer que desde que entrei na escola há mais de setenta anos nada fiz com tanta tenacidade e persistência quanto me esforçar para conhecer e dominar o idioma alemão, e que ainda me sinto nisso como um espantado iniciante que, encantado, meio assustado e meio feliz, se deixa introduzir nos enganosos jardins do alfabeto do qual se consegue compor, com um montinho de letras, palavras, frases, livros e imagens gráficas do universo inteiro.
Felicidade. Herman Hesse. Record, 2023. Tad. Lya Luft.



Comentários