13 vezes Natalia Ginzburg sobre identidade, memória e escrita
A escritora italiana (1916-1991) reflete sobre sua vida, o início da carreira literária e os desafios para escrever os livros que, ao longo da vida, a consagraram como uma das autores mais importantes do século 20

1. O meu nume era Tchékhov. Tinha, porém, outros vários numes, e todos eles me acompanhavam de manhã até de noite, protetores e interlocutores invisíveis, aos quais submetia e destinava, constantemente, dentro de mim, não só meu desejo de escrever como também cada pensamento, cada gesto e cada hábito; protetores cujos livros eu não os lia, mas sugava como um bebê suga o leite da sua ama, tentando sugar e absorver o segredo da prosa.
2. Não gostava muito do meu ambiente social. Era filha de um professor universitário. Não sei por que, mas achava a profissão do meu pai inaceitável: achava que, dentre todas as profissões, era a menos propensa a gerar escritores. Gostaria que meu pai fosse ou um príncipe ou um camponês; e que nós fôssemos ou muito ricos ou muito pobres. E no entanto a minha família não era nem muito rica nem muito pobre: éramos, infelizmente, burgueses.
3. Só se pode narrar aquilo que se conhece, aquilo que se conhece de dentro, e como é difícil descrever uma condição social diferente da nossa, difícil, quase impossível, impossível como imaginar um personagem que vive às margens do Danúbio, do Neva ou do Don — nunca seria capaz de narrar histórias nem de camponeses, nem de príncipes; não conhecia nem a vida dos muito ricos, nem a vida dos muito pobres; e além do mais eu era judia, e como a minha família não era nem um pouco praticante, a nossa condição era particular e diferente da dos outros: como imaginar a vida dos outros estando em um ponto tão restrito, tão particular e incomum?
E, sobretudo, não me perguntei em nenhum momento se escrevia por acaso. O acaso estava totalmente exilado de mim
4. Quando eu era criança, desejava conseguir transportar toda a minha vida a um livro: escrever um grande livro que contivesse, dia por dia, toda a minha vida, junto às vidas das pessoas que estavam ao meu redor. Mas quando era criança, amava a minha vida; já na adolescência, eu a detestava. Por isso, agora, na adolescência, mesmo que já tivesse entendido que só é possível narrar as coisas que conhecemos de dentro, não queria que nada de mim se refletisse nos meus contos, nada de mim e da minha vida; queria que meus contos, embora nutrindo-se apenas daquilo que eu conhecia, como era necessário e inevitável, fossem projetados em um mundo impessoal, separado de mim, de modo que não se pudesse distinguir neles nenhum traço meu.
5. Tinha um horror sagrado à autobiografia. Sentia terror e horror, porque a tentação da autobiografia era muito forte em mim, sabia que costumava ser assim com as mulheres: e então a minha vida e a pessoa que eu era, banidas e detestadas, podiam aparecer num relance na terra proibida da minha escrita. E eu tinha um terror sagrado de ser “melosa e sentimental”, ciente de que havia em mim uma forte inclinação ao sentimentalismo, defeito que julgava odioso porque feminino: e eu queria escrever como um homem.
6. Um dia, uma pessoa me disse algo que me marcou profundamente. (...) me disse que os contos que eu escrevia realmente não eram ruins; eram casuais, porém. Isto é, eu não sabia nada da realidade, mas tentava adivinhar: me movimentava em um mundo ainda irreal, como sempre é o mundo dos adolescentes, e os objetos que descrevia e os episódios que narrava só eram verdadeiros e reais na aparência, mas eu não conhecia o verdadeiro peso e o verdadeiro significado deles, eu os tinha agarrado por acaso, pescando ao acaso no vazio. A verdade dessas palavras me deixou atordoada. Eu realmente escrevia por acaso, espiando a vida dos outros mas sem entendê-la bem e sem saber nada a respeito dela, tentando adivinhar e fingindo que sabia. Por isso, podia acontecer — essa parte ele não disse, mas senti que transparecia nas suas palavras — podia acontecer que no dia em que parasse de ser casual, isto é, no dia em que começasse a fazer parte do mundo dos adultos, eu perdesse completamente a capacidade de escrever. Isto é, quando as palavras adquirissem para mim seu verdadeiro significado e seu verdadeiro peso, eu podia me tornar fraca demais para conseguir usá-las.
7. Então, passei a me esforçar para escrever não mais por acaso. Mas não era fácil. Fiquei desconfiada, farejava e auscultava cada palavra que escrevia, para ver se não era casual. Depois parei de farejar cada palavra, porque, se me detivesse para farejar cada palavra desse jeito, acabava que não escrevia mais nada. E depois virei adulta e descobri que o perigo de ser casual continuava existindo. Porque não se tratava de um vício da adolescência, mas sim de um vício do meu espírito. Eu era hábil no jogo da simulação e do fingimento: era hábil em fazer de conta que amava aquilo que na verdade me era indiferente, era hábil em tentar adivinhar e em fingir que sabia.
É preciso escrever e pensar com o coração e com o corpo, e não mais com a cabeça e com o pensamento.
8. Aos poucos, me tornando adulta, pensava cada vez menos na escrita: e hoje realmente não penso mais. Hoje não tenho nenhuma ideia, nunca; penso em outras coisas, estou sempre pensando em outras coisas, até o dia em que começo a escrever: quando começo a escrever, hoje como naqueles anos, mergulho fundo na história que estou escrevendo. Mas costumo viver sem nenhuma história na cabeça, nenhuma: não sinto mais na minha cabeça aquela perene, indistinta e doce flutuação. E antes me sentia culpada se não escrevia: e mesmo quando não tinha vontade de fazer nada e tinha a sensação de estar árida e vazia, me obrigava a tentar escrever. Hoje não me sinto culpada se não escrevo, não tento escrever se não tenho vontade, não olho mais as coisas e as pessoas pensando que poderia encaixá-las em um conto, não fico arquitetando frases e articulando contos, e se penso em como eu era quando tinha vinte anos, tudo em mim se transformou tanto que até acho difícil me reconhecer, e quando começo a escrever reencontro a felicidade daquele tempo, reencontro aquela grande felicidade, não mais, porém, aquele prazer fresco e puro que sentia antes, aquele prazer fresco de tocar e mover coisas que nunca antes tinha movido e tocado, reencontro uma grande felicidade, porém não mais aquele vivo e fresco prazer.
9. Para não enrolar, escrevi e reescrevi muitas vezes as primeiras páginas, tentando ser o mais enxuta e seca possível. Queria que cada frase fosse como uma chicotada ou um tabefe.
10. Escrevi essa história para ser um pouco menos infeliz. Era um erro. Nunca devemos procurar um consolo na escrita. Não devemos escrever com um objetivo. Se existe uma certeza é que é necessário escrever sem nenhum objetivo.
11. Quando o livro foi lançado, alguém me disse: “Se você estivesse mais feliz, teria escrito um livro melhor”. Eu não disse nada, porque pensava que era verdade. Era verdade mesmo, era ainda mais verdade, porém, que para mim não se tratava de ficar menos infeliz, mas de conseguir escrever a despeito da minha infelicidade e sem me preocupar com ela, sem deixar que turvasse e contagiasse as coisas que escrevia. Mas, para conseguir isso, é preciso que a infelicidade, em nós, não seja uma interrogação lagrimosa e ansiosa, mas uma consciência absoluta, inexorável e mortal.
12. Ora, existe uma certa medida de esforço em tudo aquilo que escrevemos, mas é preciso que essa medida nunca seja superada. Ou melhor, quando escrevemos, o esforço deve ser um esforço natural e feliz, nunca deve ser o esforço triste e frio do pensamento. O pensamento, quando faz esforço, não fica maior, fica menor. Fica pequeno como um inseto. O seu empenho é como o de uma formiga que trabalha em seu formigueiro. É preciso escrever e pensar com o coração e com o corpo, e não mais com a cabeça e com o pensamento.
13. Léxico familiar é um romance de pura, nua, descoberta e declarada memória. Não sei se é o melhor dos meus livros, mas com certeza é o único livro que escrevi em estado de absoluta liberdade. Escrevê-lo era para mim exatamente igual a falar. Colocar vírgulas ou não colocar vírgulas, tecido largo ou tecido estreito, nada disso me importava mais nada, nada. Não tinha nenhum tipo de repulsa ou aversão. E, sobretudo, não me perguntei em nenhum momento se escrevia por acaso. O acaso estava totalmente exilado de mim.
Fonte: texto publicado como prefácio à coletânea Cinque romanzi brevi e altri racconti, em 1964. Presente como posfácio no romance"As Vozes da Noite" (Companhia das Letras, 2026). Trad. Iara Machado Pinheiro.



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